2 de set de 2010

Querendo ou não.

Aprendi amar sozinha. 
Na prática. 
Faltou a teoria, a conversa séria.
Não há culpado.
Você também não aprendeu. Aliás, aprendeu, como eu, com a vida.
A diferença é que eu aprendi a demonstrar o que sinto.
Foram anos de medo.
Medo respeitoso.
Eu te punha num trono e te chamava de Rei. O rei da casa.
Foi esse medo que me impediu, várias vezes, de deitar ao seu lado no sofá, de dizer que você era o meu herói. 
Medo que me impedia de falar o quanto eu te admirava...


Você não sabia, mas era o homem mais lindo da minha vida.
Não existia nenhum outro pai que jogava bola tão bem, nenhum outro era tão bonito, tão moreno, tão simpático e tão engraçado.
Aprendi com você que fazer os outros sorrirem é o melhor jeito de ganhar amigos.
Aprendi com você que uma piada, mesmo que seja contada várias vezes, arranca sorrisos e alivia a alma.
Você nunca me ensinou nada, mas eu sempre aprendi com você.
Ao crescer, entendi que o ser humano não era feito somente para ser o palhaço.
O trabalho, a família e os amigos também podiam dar dor de cabeça. 
As piadas só resolviam uma parte dos problemas, mas  não acabavam com eles.


E toda vez que eu penso em vc, me vem à memória a mesma cena:
Você de bermuda, deitado no sofá, com um copo de ''só dois dedinhos'' de café ( que eu sempre era a sorteada a colocar ), com o dedo no nariz, olhando pra televisão, mas com o pensamento longe...
... bem longe.
Longe de mim.
Longe da nossa casa.
Com um olhar confuso e cheio de interrogações.
Você pra mim sempre foi um incógnita.
Te amava tanto que tomei , por muitas vezes,  suas dores pra mim.
Te odiava por horas, mas te perdoava com o primeiro sorriso que arrancasse de mim.
Hoje eu sei que na verdade idealizei 80% do  PAI que tive..
Você existiu, mas querendo ou não, era melhor dentro de mim.




Sinto falta do pai que eu desenhei.
Falta de te ver no sofá; das cócegas assassinas que me tiravam o ar e me faziam chorar implorando para que parasse...
Sinto saudade do cheiro do chulé que a sua chuteira, molhada de suor, deixava no seu pé.
Saudades das suas chantagens para roubar mais um pedaço de carne do meu prato.
Saudades de rir de você. De chorar por sua causa.
Sinto saudades, NÃO do 'marido da minha mãe'... (esse eu quero esquecer )... eu só sinto falta do PAI que sempre existiu na minha cabeça... 
Que mesmo distante e frio, estava aqui, no sofá ao lado.
Mas que era o MEU PAI. O meu PaiLHAÇO.


Aprendi a acertar vendo os seus erros. E foram eles que me fizeram te amar cada vez mais.
Por mais imperfeito que você seja, estará sempre como o primeiro homem da minha vida. O PAI QUE DEUS ME DEU.




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